A polêmica envolvendo o livro A Marca de uma Lágrima numa escola em Belo Horizonte

Polêmica envolvendo o livro "A Marca de Uma Lágrima" - Capa do Livro
Polêmica envolvendo o livro “A Marca de Uma Lágrima” – Capa do Livro

Quando eu era moleque (muitos carnavais atrás) tive contato com um livro muito interessante chamado A Marca de Uma Lágrima do autor Pedro Bandeira, um livro cativante e, apesar de antigo (publicado em 1985), trata de assuntos bem atuais na vida de qualquer adolescente, como Amor, Bullying, amizades (verdadeiras ou não), conflitos internos ,problemas com os Pais e a descoberta da sexualidade.

Bom, ninguém no livro chega a fazer sexo, mas o erotismo velado em muitos dos pensamentos de Isabel estão tirando o sono de alguns pais.

SIM, MAS QUAL É A TRETA?!

Alguns pais de alunos do sétimo ano do ensino fundamental do Colégio Santa Maria (com filiais em BH e região metropolitana) criaram um abaixo-assinado na intenção de tirar o referido livro da grade de livros que farão parte dos estudo dos alunos.

A alegativa dos pais é de que existe um conteúdo erótico que pode  “causar comportamentos irreparáveis, presentes e futuros” e, ainda argumentam que um livro dono de tal conteúdo não condiz com uma escola “reconhecidamente Católica”.

Vejam alguns trechos que podem ser o alvo das críticas dos Pais envolvivos no assunto:

“Não conseguia lembrar-se do primo em meio às pálidas recordações dos garotos de sua infância. Teria sido aquele que se divertia batendo nos menores? Ou seria aquele outro que teimava em tirar sua calcinha? — Quer tirar minha calcinha agora, Cristiano?”

“Não seriam atraentes aqueles pequeninos seios que muito bem poderiam ter servido de fôrma para taças de champanhe? ‘Vem, Cristiano, tomar do meu champanhe… Vem me buscar inteirinha, Cristiano…’”

“Ai, cobra e aranha, aranha e cobra, a aranha quer a cobra, a cobra busca a aranha, a aranha se debate na gaiola de vidro, vai quebrar-se o vidro, já vem vindo a cobra, vem, Cristiano, me abraça, me enlaça, me arregaça, me enleia, tateia, procura, me aperta, me pega, me toma, te amo, sou sua, estou nua, te quero, te pego, te levo comigo, me leva contigo, me faz viver, me faz feliz, me faz mulher!”

Poisé. Como se os Católicos não pensassem em sacanagem.

E SIM, eu fico puto com essas coisas.

Eu até posso entender que, com efeito, tais linhas possam dar uma boa sacudida nos hormônios de um adolescente, mas há muitas outras coisas na História do livro que devem ser levadas em consideração.

Como eu já falei lá em cima, o livro tem, sim ,um conteúdo erotizado, mas sejamos mais construtivos, esse exercício de erotismo da Isabel é um passseio na Disney com tudo pago comparado a outros livros de cabeceira de muitos adolescentes como 50 Tons de Cinza, o próprio Crepúsculo.

O livro também trata de assuntos bastante atuais e de impacto na vida de um adolescente como a insegurança constante em sua vida, seja por ela se achar feia (Isabela enfatiza isso diversas vezes), seja pela ausência de uma família estruturada (mora com a mãe, pais separados), além de bullying, sem falar nos conflitantes sentimentos “do corassaum” que os adolescentes, por algum motivo, priorizam tanto.

Ah, e ainda há uma trama policial ao estilo “Quem matou Odete Roitman?!”.

Enfim, adolescentes  com a idade de Isabel (14 anos, se não me engano) estão descobrindo essas facetas da vida (tudo de uma vez) e um livro assim é uma oportunidade de abordar assuntos tão delicados de uma forma bastante interessante e sem rodeios. E não jogar o livro (e o autor) numa fogueira e fazer uma Santa Inquisição.

Tem gente que não sabe aproveitar uma oportunidade.

UM POUCO DO LIVRO

A história é de Isabel, uma menina que foge aos padrões de beleza (gordinha e de rosto não muito atraente), porém, inteligente e de piadas ácidas na ponta da língua. Isabel vai a uma festa de aniversário e acaba se apaixonando perdidamente pelo primo, Cristiano e este se apaixona por Rosana, amiga de Isabel.

Rosana é gata linda e maravilhosa do cacete, mas é burra feito uma porta.

Nossa heroína descobre que ambos (Cristiano e Rosana) se “amam”, então, para não surtar de amor não correspondido, ajuda a amiga mandando cartas para seu primo assinadas como se fosse a amiga.

Aqui eu não tenho certeza, mas na versão que eu li, há uma informação interessante: Pedro Bandeira teria se baseado, para fazer a personagem Isabel, no personagem Cyrano de Bergerac (de livro homonimo) e

Alias, o Pedro Bandeira até lembra o Cyrano.

Imagem tirada da pagina do Pedro Bandeira no Wikipédia – https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_Bandeira

Poisé.

Aliás de novo, foi A Marca de Uma Lágrima que me catapultou para os livros versados como o próprio Cyrano de Bergerac, depois indo para Iliada, Odisseia, Os Lusiadas  e o bom e velho Shakespeare.

Quem lê isso, jura que eu sou um tremendo leitor.

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4 comentários Adicione o seu

  1. ohmylivros disse:

    Sétima série os adolescentes já sabem mais do que os pais imaginam (na verdade acho que os pais fazem de conta que não sabem). Queria saber se novela/seriados são proibidos na casa dessas pessoas, porque são muito piores…
    Outros livros são liberados porque são fantasias (tipo Crepúsculo), mas descrevem relacionamentos abusivos e está tudo bem.

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  2. Ismael disse:

    Conheci a obra de Pedro Bandeira com “A droga da obediência”.Depois disso passei a ler todos livros que levavam a sua assinatura. Me tornei fã de carteirinha. Hoje, com 37 anos e três filhos, funcionário público e graduado em filosofia não consigo conceber em qual parte o livro afetou minha vida negativamente. Mas enxergo perfeitamente que o livro me mostrou como não tratar as pessoas que saíam dos padrões da época. Lembrando que, li o piimeiro por pertencer a grade de atividades da escola, os demais por puro prazer da leitura.
    O que podemos perceber é que temos hoje, muitos pais que querem parecer preocupados com a formação dos filhos mas na verdade ficam só no parecer mesmo. Acham interessante quando o filho não se “mistura” com o menino calado da escola porque ele é estranho. Querem muito uma formação mecânica ao invés de querer uma formação humana. E como não podemos deixar de falar politicamente, polêmicas dão evidência a quem a alimenta. Esse talvez seja o ponto chave de tudo isso. Muitos dos pais que repreendem o livro levariam sem nenhum problema o filho a uma “matinê” de baile funk. Hipocrisia pura!

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  3. Nanybc disse:

    Será que algum desses pais já leram as obras de Jorge Amado? Precisei ler algumas na 7ª série… Machado de Assis… Talvez nem mesmo perceberam que assistindo o tão famoso “10 Mandamentos” tem o erotismo presente em uma história que trata de religião…

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  4. Sheila disse:

    É uma oportunidade de dialogar abertamente com nossos filhos. Além disso, uma boa literatura me parece melhor que as novelas da globo. Impossível controlar suas vidas se eles teem tudo o que quiserem disponível na internete de seus próprios celulares.

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