Mês da Mulherada – Identidade e solidão no feminino

POSTAGEM ORIGINAL: DIÁRIO DO NORDESTE

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Imagem de Cirenaica Moreira para a mostra: símbolos do universo feminino em performances
Imagem de Cirenaica Moreira para a mostra: símbolos do universo feminino em performances

As imagens e objetos de “Ensaio do Corpo para o Baile Solitário: diálogo entre fotografia e performance” suscitam reflexões sobre o universo feminino, a partir da construção de narrativas imagéticas relacionadas ao fantástico e a representações imaginárias. A exposição, cuja abertura acontece amanhã, no Espaço Cultural dos Correios, traz um diálogo iniciado há meses entre as artistas Maíra Ortins e Cirenaica Moreira.

Maíra é pernambucana, mas há muitos anos mora em Fortaleza, onde cumpriu parte de sua formação e carreira profissional. Cirenaica é cubana, tendo desenvolvido sua trajetória fundamentalmente na capital do país, Havana. Foi lá, aliás, que as duas se conheceram e iniciaram o atual projeto.

“Entre 2012 e 2013 fui representada por uma galeria em Bruxelas (Bélgica), que trabalha só com artistas latinos, com foco na produção cubana. Ao visitar o espaço, a proprietária sugeriu-me realizar uma mostra junto com uma artista cubana que trabalhasse com fotografia”, recorda Maíra.

“Dos nomes mencionados, identifique-me com a obra de Cirenaica tanto por ela também se dedicar à fotografia performática quanto abordar o universo feminino”, complementa. Ainda sem as duas se conhecerem pessoalmente, a galeria organizou uma exposição conjunta em Havana. “É mais ou menos o que vamos apresentar aqui. Mas não achei legal repetir o nome, porque envolveu outro processo. Em Havana, quando nos conhecemos, passamos dez dias convivendo, conversando, iniciamos outro ciclo”, conta Maíra.

Trajetórias

Cirenaica Moreira e Maíra Ortins possuem longa trajetória artística, com exibições de trabalhos pelo mundo. Cirenaica tem representações em galerias em Nova York e participou da conceituada Bienal de Havana. Já Ortins realizou exposições individuais em Barcelona, Alemanha e Madri.

Entre os aspectos comuns às obras de “Ensaio do Corpo para o Baile Solitário”, a pernambucana cita o aspecto da solidão – daí parte do nome da exposição. “Nesse tempo ficamos as duas o tempo todo dialogando por meio do trabalho, mas sozinhas, isoladas por certa distância. Mesmo assim há a proximidade estética, conceitual, principalmente porque trabalhamos com o corpo”, explica Maíra.

Enquanto a pernambucana faz toda a direção de arte e também aparece nas próprias imagens, Cirenaica dedica-se exclusivamente à direção. Em suas construções imagéticas, outras pessoas aparecem, a exemplo de sua filha e seu marido.

Ao todo, são 21 fotografias- dez de Maíra e 11 de Cirenaica -, além de Moreira dois objetos da primeira. Para a curadora Darys Vázquez (que vive e trabalha em Havana, mas veio a Fortaleza para a abertura), o conjunto de fotografias “aborda o universo do sonho, narrativas inventadas. Encantamento e estranhamento andam juntos, travam um diálogo profícuo e singular, além de representar o universo feminino de forma original, propositiva e instigante aos olhos”.

Enquanto Cirenaica aborda o universo feminino sob a perspectiva do cotidiano, da casa, dos afazeres domésticos e da sexualidade, Maíra discorre sobre a figura feminina a partir da ligação com o mar e as histórias de pescadores, os mitos e crenças populares e o universo das criaturas misteriosas do fundo do oceano. É uma criatura com ares de sereia que aciona códigos sociais ligados à mulher, tais como a sexualidade, o poder, a sedução e o medo.

A escolha deu-se ainda quando Maíra trabalhava com os poemas de Manuel Bandeira (como na exposição “Eu, retalhos”). “Em determinado momento cheguei ao poema ‘Vou-me embora pra Pasárgada’. Resolvi explorar essa questão da imigração, dos migrantes. Pensei Pasárgada como o ideal universal de ‘lugar melhor’, para o qual o indivíduo se desloca ao sair de sua terra de origem”, comenta.

Em uma ligação com o mundo marítimo, Maíra inseriu na proposta a ilha de Atlântida, que, segundo a lenda, teria afundado e desaparecido. “Haveria, então, uma personagem sempre em busca por essa ilha, por resquícios dela em suas andanças”, observa.

A escolha pelo universo marítimo é justificada pela artista devido à força do mesmo no imaginário popular brasileiro.

“No trabalho de Cirenaica também há essa ideia de realismo fantástico, das situações de isolamento, até por uma questão social, política, que permeia sua vida. Assim como no meu, há reflexões sobre identidade, territorialidade”, comenta Maíra.

Palestra

No mesmo dia da abertura da mostra – que tem patrocínio dos Correios, a partir de edital público para compor a programação 2014/2015 do equipamento cultural mantido pela ECT em Fortaleza – as artistas ministram no local palestra junto com a curadora.

Também serão disponibilizados cartões postais com imagens da mostra. O projeto inclui ainda a publicação de um livro, a ser lançado até o fim da exposição, em maio, com uma coletânea de obras das artistas e textos críticos, em português, inglês e espanhol.

Mais informações

Exposição “Ensaio do Corpo para o Baile Solitário: Diálogo Entre Fotografia e Performance”. Abertura hoje, às 15h, no Espaço Cultural Correios Fortaleza (R. Senador Alencar, 38, Centro), com palestra às 14h30. Visitação até 17/05, das 8h às 17 horas (segunda a sexta) e das 8h às 12h (sábados). Gratuito. Contato: (85) 3255.7262

Adriana Martins
Repórter

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