Setembro Amarelo – O Ritual Sati

Viver em um ambiente competitivo e perfeccionista acabam estimulando sua mente a desenvolver pensamentos nada interessantes, principalmente se você não agüenta a pressão.

O suicídio pode parecer sua melhor escolha, corajosa e tal, mas não e.

Uma sociedade pode induzir (obrigar) alguém a tirar a própria vida como preço a pagar pela honra perdida em algum momento do dia ou para quitar um erro do passado e viver em um ambiente assim, certamente, seria a pior coisa na vida de alguém.

Mentira!

Tem coisa pior sim. Pelo menos os amarelos se matam para resgatar seu respeito diante do povo e atuam de forma ativa no desenvolvimento da cidade. Agora imagine ser mulher em um lugar onde as viúvas são obrigadas a se matar pelo simples fato de serem viúvas.

Bem vindo à Índia.

SATI – O SACRIFÍCIO DA VIÚVA HINDU
Entenda uma sociedade como uma família. O macho alfa domina e diz o que deve e o que não deve ser feito, além do sustento de todos. Fica com a esposa as tarefas de cuidar da higiene, alimentação e manutenção da casa e da família, além de subordinação total ao marido.

Hoje eu vou te usar!

Durante nossa peregrinação terrestre (seja lá qual for nossa utilidade nesse mundo), sociedades patriarcais ou fálicas norteavam as populações e colocavam a mulher em situações, no mínimo, desconfortáveis. Normalmente recebiam ordens e tinham sua  individualidade exposta a abusos de toda a sorte.

Ou seja, a mulher não mandava em porra nenhuma.

Uma pintura de James Atkinson (1831) sobre o Sati

A pior parte é quando o Macho Alfa da casa morre, e é aí que a prática do Sati entra em cena. A recém viúva é despojada de todos os adereços de uma mulher casada, como pulseiras e o sinal Sindoor (uma linha vermelha feita no meio da cabeça). Com a morte do marido, o sacrifício voluntário da esposa nas chamas da pira funerária do marido era uma prática adotada por algumas comunidades indianas. A proposta do sacrifício da viúva vem da lenda da deusa Sati, também conhecido como Dakshayani, que se autoimolou, porque ela foi incapaz de suportar a humilhação de seu pai Daksha por viver enquanto seu marido Shiva morreu.

E mole ou quer duro?!

Contudo, a lenda não expressa que, nesse caso, o suicídio deva ser uma pratica quando seu marido esticar as canelas. Há correntes ideológicas que entendem o Sati com um propósito bem menos agregado ao lado cultural do povo indiano: A prática tinha, na verdade, a intenção de evitar que a viúva tomasse a herança do marido morto.

E ESSE NEGÓCIO DE SE ACABAR NO FOGO É VERDADE MESMO?!
Então… há registros antigos sobre o assunto (poucos, mas tem), como o caso do historiador Aristóbulo de Cassandreia que acompanhou Alexandre, o Grande, em suas viagens e presenciou um Sati. Apesar da proibição desse Ato Nefasto por parte da Índia britânica, ainda é possível encontrar registros de suicídios de viúvas na pira funerária dos maridos, em 2006, uma viúva praticou o Sati numa vila em Tuslipar, no estado central de Madhya Pradesh.

Este culto mórbido parece ter impressões positivas ao povo, já que temos homenagens e dedicações suntuosas para suas praticantes. Um exemplo de aceitação do Sati é o Forte Mehrangarh. Uma fortaleza com sete grandes portões, segue abaixo os mais famosos:

  • Jai Pol (“Gate of Victory”) –  Construído pelo marajá Man Singh em 1806 para celebrar sua vitória em uma guerra com Jaipur e Bikaner.
  • Fateh Pol – Construído para celebrar a vitória sobre os Mongóis em 1707;
  • Dedh Kamgra Pol –  Que ainda carrega as cicatrizes de bombardeio por balas de canhão;
  • Loha Pol –  Porta final para a parte principal do complexo. Imediatamente à esquerda são as impressões de mãos das Ranis (rainhas) que, em 1843, praticaram o Sati para homenagear o marido, o Maharaja Man ​​Singh.
Jodhpur_Sati
Marcas das viúvas do Maharajah de Jodhpul

EFEITOS NEGATIVOS E PREVENTIVOS
Na época, o Sati podia parecer interessante e resolver (até certo ponto) assuntos relativos ao marido morto e o destino da viúva e dos pertences do falecido, porém, estamos em um mundo moderno e muitas práticas de outrora não cabem mais. Certos costumes deixariam mais da metade das pessoas de nosso planeta totalmente escandalizados.

Conforme já havia mencionado anteriormente, a Índia britânica interviu sobre o assunto, através do Bengal Sati Regulation, em 1829. Também é sabido que foi criado, pelo governo de Rajasthan, a Comissão de Prevenção ao Sati, por meio do Acto de 1987, que proíbe a prática e o estímulo do suicídio de viúvas antes, durante e depois dos procedimentos fúnebres do marido, além de proibir a glorificação deste evento.

Portanto, pode ficar tranquilo. Tais leis asseguram a integridade física das viúvas e você não precisa mais pular na primeira chama acesa no funeral de seu digníssimo. Melhor ainda, as viúvas não serão mais incendiadas, enterradas vivas, espoliadas, espancadas ou humilhadas por causa de uma cultura tão ofensiva e desgostosa quanto a condição humana. O ritual Sati foi banido da cultura indiana.

Nem mesmo a Índia sustentaria uma prática tão desmedidamente opressora.

Não senhor! Não a Índia!

Para isso, eles mantém as viúvas vivas isoladas em uma cidade, quase como atração turística culturalmente correta.

Como é?!

VRINDAVAN – A CIDADE DAS VIÚVAS
Pode parecer um absurdo descomunal do caralho, mas é verdade. Na Índia, existe uma cidade apropriada para jogar as viúvas que estão protegidas da prática cultural do suicídio voluntário. Na verdade, em um primeiro contato, a ideia de jogá-las em uma cidade tão culturalmente proeminente (de acordo com o Mahabharata, Krishna passou sua infância em Vrindavan) pode até parece um favor.

Mas é humilhante confinamento puro e simples. A humilhação e condições de mendicância que elas passariam em sua terra natal, agora passam longe.

Estima-se que existam, atualmente, cerca de 20.000 viúvas vivendo nas ruas de Vrindavan, pedindo esmola e carregando o infortúnio de ser culturalmente descartável. A condição de pobre também deve obedecer padrões culturais: Paga ganhar alguns tostões e uma caneca de arroz, a viúva deve cantar algumas orações para os transeuntes.

Há, ainda, uma ONG voluntária ( www.maitriindia.org) que auxilia estas mulheres. O pessoal da Maitri Índia disponibiliza uma pensão de R$300,00, além de um almoço por dia, além de assistência médica básica, ginecológica e geriátrica, já que elas chegam a passar até 30 anos em condições desumanas e vergonhosa… para dizer o mínimo.

Mas isso tudo é uma opinião minha, há quem goste dessas coisas.

Para terminar, recomendo o blog Deva – Índia e seus Encantos. Ele tem uma postagem bem bacana sobre uma viagem até Vrindavan. Independente da percepção cultural do fato, o suicídio induzido ou o confinamento em uma cidade rodeada de pobreza e doença é assombroso. A CNN também já fez uma reportagem sobre a cidade.

Suicídio em busca da honra, suicídio e/ou isolamento em condições de mendicância em nome de uma cultura questionável… entendam que se não levamos nada dessa vida depois que batemos as botas, não será um suicídio que melhorará minha situação. A coisa piora se pensarmos em uma vida após a morte, pense nas condições que você chegará no além túmulo depois de viver o indescritível, como será recepcionado e os comentários que te aguardam ao saberem que você devotou sua vida a uma sociedade que limpa a sola dos sapatos em seu rosto.

Pense nisso.

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