O adeus à Dama de Ferro britânica

FONTE ORIGINAL: DIÁRIO DO NORDESTE

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Thatcher comandou os conservadores em três vitórias eleitorais, num período que durou de 1979 a 1990

A mulher que se tornou conhecida como “Maggie” transferiu grande parcela da economia britânica das mãos do Estado para a iniciativa privada. Ela enfrentou sindicatos e venceu disputa após uma greve de um ano FOTO: REUTERS

Londres. A ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, “a Dama de Ferro”, figura crucial na política britânica do século XX, morreu ontem, aos 87 anos, após sofrer um derrame. Durante a carreira política, a filha de um modesto quitandeiro foi idolatrada por alguns como uma modernizadora, e acusada por outros de ter acirrado as divisões entre ricos e pobres no país. Margaret reprimiu sindicatos e privatizado muito do patrimônio público.

Margaret Thatcher vai receber honras militares e, não de Estado. A cerimônia fúnebre ocorrerá na Catedral de Saint Paul, em Londres, capital do Reino Unido. O corpo será cremado e apenas amigos e parentes poderão acompanhar a parte final da cerimônia.

Única mulher a ocupar o cargo de premiê na Grã-Bretanha, Thatcher comandou os conservadores em três vitórias eleitorais, num período que durou de 1979 a 1990 – maior período ininterrupto de um primeiro-ministro britânico desde o início do século XIX. Com o presidente norte-americano Ronald Reagan, ela formou uma sólida aliança anticomunista, recompensada com a queda do Muro de Berlim em 1989 – embora ela temesse que uma Alemanha unificada viesse a dominar a Europa.

Suas radicais posições direitistas alteraram tão profundamente a política britânica que os governos trabalhistas que a sucederam aceitaram muitas das suas políticas.

As imagens mais marcantes do seu governo são de conflito: enormes confrontos entre policiais e mineiros sindicalistas; ela, com lenço branco sobre a cabeça, andando de tanque; as chamas sobre a praça Trafalgar durante os protestos contra um impopular imposto que acabaram levando à sua queda.

Thatcher notoriamente ignorava críticos. “Aos que esperam por uma guinada, só tenho uma coisa a dizer: deem a guinada se quiserem. Essa dama não volta atrás”, disse num célebre discurso de 1980 a membros do Partido Conservador que pediam mais moderação no governo.

Outros que cruzaram seu caminho, particularmente na Europa, estavam sujeitos a violentas críticas, frequentemente chamadas de “bolsadas”, numa alusão à bolsa de couro preto que ela invariavelmente carregava.

A mulher que se tornou conhecida como “Maggie” transferiu grande parcelas da economia britânica das mãos do Estado para a iniciativa privada. “O problema do socialismo é que você no fim das contas esgota o dinheiro dos outros”, afirmou ela certa vez.

Seu credo pessoal, baseado na competição, na iniciativa privada, na frugalidade e na autoconfiança, deu origem a uma filosofia política conhecida como “thatcherismo”. Mas seu amargo remédio econômico deixou milhões de pessoas sem emprego, alienou multidões e destruiu setores econômicos.

Sua posição combativa gerou atritos na Europa, e sua intolerância contra dissidências acabou provocando sua queda. “Uma tirana brilhante, cercada por mediocridades”, foi como o ex-premiê Harold Macmillan a descreveu. “Aquela mulher sanguinária”, foi o veredicto menos complacente de outro ex-premiê, Edward Heath, seu antecessor como líder conservador.

No auge de seu poder, Thatcher foi, por sua própria personalidade, uma das mais conhecidas figuras ocidentais. “Workaholic”, trabalhava até 18 horas por dia, e depois relaxava tomando um copo de uísque.

Reformas

Após ganhar a eleição de 3 de maio de 1979, ela lançou reformas sociais e econômicas destinadas a acabar com aquilo que ela via como uma situação de declínio do setor industrial, impostos paralisantes e controle estatal intrusivo – fatores que, sob o governo trabalhista anterior, haviam motivado o chamado “inverno do descontentamento”.

O combate a aumentos salariais inflacionários e as medidas de modernização econômica exigiam restringir o poder dos sindicatos. Após mudanças na lei e uma greve que terminou em derrota para os mineiros, em 1985, os sindicatos perderam poder.

Uma pesquisa de opinião em 1981 apontou Thatcher como o mais detestável primeiro-ministro de todos os tempos. Mas, dois anos depois, após a guerra das Malvinas, ela foi reconduzida ao poder em uma onda de patriotismo. Em 1987, obteve sua terceira vitória eleitoral consecutiva.

Privatizações

Thatcher deu início a uma era de “capitalismo popular” que aumentou para 68% os britânicos com casa própria, e fez com que uma em cada cinco pessoas se tornasse acionista de empresas.

Promoveu uma onda de privatizações. Mas, embora o thatcherismo tenha melhorado a vida de muita gente, o desemprego dobrou até meados da década de 1980, atingindo mais de 3 milhões de pessoas – nível inédito. Adversários diziam que Thatcher havia criado uma nação dividida entre o sul, mais rico, e o norte, mais pobre.

Personalidade dominou política Condução de guerra foi danosa para argentinos

Especialista em Margaret Thatcher, a professora de História Contemporânea do King´s College Eliza Filby afirma que é indiscutível a importância da ex-primeira-ministra britânica para a História do país, apesar do legado negativo que terá deixado, como o excesso de liberdades no mercado financeiro.

Para a professora, ela tirou o país de um caos que vinha desde o século XIX. “Quando assumiu o poder, estava determinada a criar um sentimento de confiança nacional e de revitalização. E conseguiu. Mas também prometeu melhorar a situação econômica e conter a inflação, o que não aconteceu até deixar o cargo. Mas é indiscutível a sua importância histórica. Lutou contra preconceitos da esquerda e da direita, foi a única mulher primeira-ministra”, destaca Eliza Filby que está prestes a lançar o livro “God and Mrs. Thatcher”.

A especialista lembra que algumas medidas da Dama de Ferro foram impopulares para alguns setores da sociedade. “As privatizações realizadas em seu governo deram certo, e outras medidas econômicas também. Mas destruiu, por exemplo, a indústria do carvão e outros segmentos industriais, uma derrota simbólica para a força histórica dos sindicatos, que causa muita insatisfação até hoje”.

Para seus críticos, ela foi uma política que colocou o livre mercado acima de tudo. Foi acusada por muitos de deixar que parte da população pagasse o preço por iniciativas que aumentavam o desemprego e geravam distúrbios sociais. Para seus simpatizantes, a ex-premiê reduziu ainda o tamanho de um Estado inflado e a influência dos sindicatos, além de restaurar a força britânica no mundo.

Herança

Segundo Eliza Filby, a crise de 2008 traz relações com as medidas austeras adotadas por Thatcher. “Se as suas políticas para tornar Londres um centro financeiro, com a desregulamentação desse setor, funcionaram no curto prazo e têm até hoje o impacto de manter dinheiro no país, elas também eliminaram regras demais. E são um dos motivos da recessão de agora”, defende a especialista inglesa.

Postura rígida

Para Eliza Filby, o governo de Thatcher foi um reflexo de sua rígida postura política. Segundo ela, a Dama de Ferro era uma pessoa de convicção, daí o apelido. “Era uma mulher de valores, de alguma maneira, valores muito religiosos, por ter sido pregadora antes de política, filha de um pregador metodista. Ela cresceu indo à igreja todos os domingos. É consenso que ela dividia opiniões dentro do país. Ela era mais um fenômeno inglês do que britânico. Era desprezada na Escócia e no País de Gales”.

De acordo com a historiadora, após deixar o poder, Margareth Thatcher recebeu o título de baronesa, escreveu dois livros de memórias e se manteve ativa na política, fazendo campanha contra o Tratado de Maastrich (que pavimentou terreno para a adoção do euro) e contra a política sérvia de limpeza étnica na Bósnia. A ex-primeira-ministra britânica foi forçada a reduzir sua atuação pública em 2001, quando sua saúde começou a se deteriorar.

Isolamento

Após sofrer uma série de pequenos derrames, seus médicos advertiram sobre aparições públicas, nas quais ela se revelava cada vez mais fragilizada. Além disso, Margaret Thatcher sofria de problemas mentais, que afetavam sua memória de curto prazo. Em 2003, seu marido Denis morreu aos 88 anos de idade.

Condução da guerra foi danosa para os argentinos

A ex-primeira ministra com veteranos da Guerra das Malvinas. O conflito, há 31 anos, deixou 904 mortos, dos quais 71,7% do lado argentino FOTO: REUTERS

A guerra das Malvinas, que teve início há 31 anos, garantiu a reeleição da primeira-ministra Margaret Thatcher após a vitória do Reino Unido, enquanto a derrota da Argentina provocou a queda da ditadura militar. No entanto, o conflito não deu fim à disputa pela soberania sobre as ilhas do Atlântico Sul.

Para o pesquisador do Observatório das Nacionalidades da Universidade Estadual do Ceará, Sued Lima, na disputa pelas Malvinas, a Dama de Ferro teve um papel danoso e não mediu forças para exercer o imperialismo inglês. Além de promover os ataques como o do navio Belgrano que provocou a morte de 323 argentinos, os torpedos ingleses também destruíram qualquer possibilidade de solução pacífica, num momento em que as nações da América Latina apoiavam uma negociação e a retirada das tropas argentinas com a intervenção dos Capacetes Azuis das Nações Unidas.

Foram 649 os mortos argentinos e 255 os britânicos em 74 dias de conflito, com a rendição das tropas de Galtieri, em sua maioria recrutas sem treinamento, em 14 de junho, três dias depois que o papa João Paulo II apelou pela paz em sua visita a Buenos Aires.

“Até hoje o Reino Unido mantém o domínio sobre as Ilhas sem negociar. Chega a fazer coisas ridículas como um plebiscito entre britânicos para saber se eles querem continuar vivendo sob o domínio inglês. O resquício do colonialismo que Thatcher provocou nas Ilhas continua sobrevivendo”, avaliou Sued.

O cientista político da Universidade de Fortaleza (Unifor), Francisco Moreira, observa Thatcher como um personagem político que marcou uma época pela maneira de fazer política defendendo os ideais liberais e, ao mesmo tempo, conservadores.

Segundo ele, a Dama de Ferro reagiu à Guerra das Malvinas de acordo com o que os ingleses esperavam. “Ela agiu como um país de tradição imperialista”, afirmou Moreira.

No campo da política econômica, os especialistas avaliam que a forma de a ex-premiê conduzir o estado de bem-estar social diante das crises pode ainda gerar sequelas na atualidade. “Ela foi uma das grandes articuladoras da defesa do capitalismo que se mantém quando bancos e conglomerados são protegidos em detrimento dos trabalhadores”, afirma Sued Lima.

Para Moreira, a crise que atinge a Europa e, consequentemente, a Inglaterra está inserida em outro patamar, mas é possível que se busquem medidas austeras para salvar a economia.

Declarações

“Thatcher era uma grande personalidade política e uma pessoa brilhante. Ela permanecerá na memória e na história”

MIKHAIL GORBACHEV
Ex-líder soviético

“Barbara e eu ficamos profundamente tristes e estendemos nossas condolências a seus filhos e entes queridos”

George W. Bush
Ex-presidente dos Estados Unidos

“Como partidária sem remorsos de nossa aliança transatlântica, ela sabia que podíamos ganhar a Guerra Fria”

Barack OBAMA
Presidente dos Estados Unidos

“Primeira-ministra durante muitos anos, marcou a Grã-Bretanha moderna como poucos o fizeram”

Angela Merkel
Chanceler da Alemanha

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