Vovós cultivam maconha para pagar as contas na Suazilândia

FONTE ORIGINAL: MSN – THE NEW YORK TIMES

Piggs Peak, Suazilândia – Depois que suas filhas morreram, Khathazile não hesitou em abrigar seus 11 netos. É isso que uma ‘gogo’, ou vovó, faz nesse país, onde legiões de crianças ficaram órfãs em decorrência das maiores taxas de infecção pelo HIV do mundo.

‘Deus irá nos ajudar’, afirmou.

Talvez. Mas Khathazile se preparou, caso a intervenção divina não venha: ela planta a Swazi Gold, um tipo de maconha extremamente potente e valioso, muito desejado no crescente mercado das drogas na vizinha África do Sul. Em um campo escondido na floresta, sobre uma distante colina em um rincão árido da pequena Suazilândia, Khathazile planta a Swazi Gold para alimentar, vestir e educar seus netos.

‘Sem a maconha, nós estaríamos morrendo de fome’, explicou Khathazile, que pediu para que usássemos apenas seu nome do meio.

Com a ajuda do cultivo da maconha, Khathazile está entre os milhares de lavradores que enfrentam as agruras da vida na zona rural desse reino ao sul do continente africano, de acordo com as equipe humanitárias. O povo local encara a maconha como um complemento extremamente necessário para sua renda, pois ela é uma planta relativamente resistente e fácil de cuidar.

Khathazile não pensa em si mesma como parte da vasta cadeia global de cultivo de drogas, que inclui os plantadores de papoula no Afeganistão e os de coca na América Latina. Ela simplesmente precisa pensar nos netos e, segundo ela, só começou a plantar maconha depois que outros cultivos não deram certo.

‘Se você plantar milho ou repolho, os babuínos roubam tudo’, afirmou Khathazile.

A Suazilândia, a última monarquia absolutista da África, é oficialmente um país de renda média. Mas a extrema pobreza continua a ser comum no sertão rural dos arredores de Piggs Peak, cidade empoeirada no noroeste do país. Nem tudo brota no solo rochoso e é difícil encontrar emprego. Muitos jovens partem para as duas cidades grandes da Suazilândia, Mbabane e Manzini, ou para a vizinha África do Sul em busca de emprego.

Com isso, muitas mulheres idosas e crianças foram deixadas para trás. A distribuição massiva de antirretrovirais ajudou a diminuir os índices de mortalidade por AIDS no país, mas, de uma forma ou de outra, a doença vitimou pessoas de praticamente todas as famílias, deixando os irmãos mais velhos a cargo dos mais jovens e velhos avós lutando para educar crianças novamente.

Esse é o caso da família de Khathazile. Segundo ela, sua filha Tensile morreu aos 24 anos de idade em 2007, deixando quatro filhos. Alguns anos mais tarde, sua filha Spiwe também morreu, deixando outras três crianças sob os seus cuidados. Elas também foram viver com sua gogo. Então, em julho deste ano, sua filha Nomsa morreu, deixando para trás mais quatro crianças. Elas não podiam fazer nada, a não ser se mudarem para a cabana de um cômodo da avó.

‘Eu não posso abandonar essas crianças’ afirmou Khathazile.

Essas famílias batalham para pagar suas contas.

‘A maior parte das pessoas planta coisas que dependem da chuva’, afirmou Tshepiso Mthimkhulu, funcionário da Cruz Vermelha da Suazilândia, com sede em Piggs Peak. ‘Há muitos órfãos e viúvas que encontram dificuldades para sobreviver.’

Esse é certamente um bom mercado para sua fonte de renda alternativa. De acordo com as Nações Unidas, a África do Sul registrou um aumento no uso de maconha e a Suazilândia parece estar muito disposta a fornecer o produto. O país, uma pequena nação de cerca de 1,4 milhões de pessoas, registrou mais hectares dedicados ao cultivo de maconha em 2010 do que a Índia, um país com uma área 180 vezes maior.

Foto tirada do site MSN – The New York Times

Sibongile Nkosi, de 70 anos, afirmou ter começado a plantar maconha antes mesmo da morte de sua filha, que deixou dois órfãos. Outras mulheres de seu vilarejo, localizado em uma colina nos arredores de Piggs Peak, haviam contado que a planta dava um bom lucro.

‘Eu coloquei as sementes no chão e molhei, e elas brotaram’, afirmou a respeito de sua primeira colheita. ‘Com isso eu pude alimentar meus filhos.’

O cultivo de maconha pode ajudar bastante, mas as vovós de Piggs Peak estão longe de serem chefonas do tráfico. Elas precisam encontrar um terreno escondido para plantar, frequentemente no meio da floresta, em um lugar aonde chegam depois de horas de caminhada. Abrir uma clareira dá muito trabalho, até mesmo para mulheres acostumadas ao serviço pesado. Elas precisam comprar sementes, caso essa seja a primeira safra, e adubo. Se for mal adubada, a safra valerá menos. As plantas devem ser cuidadosamente podadas para produzir o tipo certo de flor. E é preciso tomar cuidado com as ervas daninhas.

‘As ervas daninhas são muito ruins para a maconha’, afirmou Nkosi.

Além disso, há também a polícia. Com frequência, os policiais procuram os campos de maconha durante os meses de março e abril, logo antes da colheita, e os queimam por completo, deixando as mulheres sem o fruto de seu trabalho.

Uma boa colheita pode render até 11 quilos de maconha. Mas elas vendem o produto para intermediários que vêm até os vilarejos durante a colheita, deixando as vovós sem muita margem de negociação. A maioria delas ganha cerca de 400 dólares por safra.

‘Os homens vêm da África do Sul para comprar, mas eles nos enganam’, afirmou Nkosi. ‘O que podemos fazer? Se ficamos com a maconha, a polícia pode nos prender.’

Produtores precavidos enterram parte de sua safra em barris herméticos no meio da floresta, reservando-os até dezembro, quando a oferta diminui e os preços aumentam. Mas a maioria das avós precisa do dinheiro na semana passada, e não daqui a seis meses.

Nkosi afirmou que nunca teve vontade de provar o seu produto.

‘A gente fica bêbada’, exclamou quando perguntei se ela já havia fumado maconha. ‘Se eu experimentar eu vou cair no chão!’

A maconha trouxe o sustento de sua família, mas ela se pergunta se isso realmente vale a pena.

‘Eu não quero mais plantar’, afirmou Nkosi. ‘É muito pouco dinheiro.’

Entretanto, ela já está se preparando para uma nova safra, à medida que o ano começa. A matrícula escolar dos dois netos que ainda vivem com ela custará cerca de 400 dólares no próximo ano escolar, afirmou, e essa é a única maneira de ganhar o dinheiro.

‘Quando você é pobre, você precisa fazer tudo o que estiver ao seu alcance para sobreviver’, acrescentou. ‘Quando eu ganho um pouquinho, meu coração já se enche de alegria.’

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