Vandalismo e café da manhã

Não necessariamente nesta mesma ordem. Hoje eu queria deixar de lado, um pouco, minha postura de leitor ávido de culturas antigas e amante das artes egípcias. Também, queria deixar de lado, um pouco, minha postura de amante das inúmeras línguas que os humanos distribuem pra todo lado desde a torre de Babel. Também, queria deixar de lado minha postura de cearense colérico e truculento.

Neste momento sou mais um brasileiro que adota uma postura impotente diante do descaso.

Hoje, antes das 7 da manhã, estava indo ao meu trabalho engolir o sapo nosso de cada dia, quando dei por conta de um evento que tinha muito tempo que não ocorria… o ônibus foi atingido por uma pedra de quase 20 cm de largura. Não preciso dizer que o estrago foi enorme, porém, não acertou ninguém. Pelo menos não me contaram, o evento causou apenas um tremendo susto e uma crise nervosa de riso frenético e escandaloso em um cara estranho situado no final do coletivo.

Tome nota: Existem caras muito estranhos por aí.

Acontece que esse tipo de coisa tinha parado por essas bandas, não sei como é por aí do seu lado, caríssimo leitor. Houve, sim, um período turbulento de minhas idas e vindas do trabalho, onde todos andavam receosos, houve indivíduos atingidos por pedras, ainda aqueles “rolamentos” de bicicleta atirados por um estilingue, baladeira, espingardinha de pressão, qualquer que seja. Para concluir a porra do ato, não faltavam ferramentas.

Certas coisas que ocorrem durante o passar das horas realmente ultrapassam minha capacidade de entendimento com a mesma velocidade que um cavaleiro de ouro com vontade de cagar passaria por uma toupeira pregada ao solo com “cola-tudo”. Acontece que já vi gente indo ao trabalho cedo, cansado e tentando ganhar o pão para a família, ter que passar por esse tipo de situação desconcertante. Não consigo ver problema algum com o trabalho, é uma penúria interessante, muitas culturas atestam e aprovam, de maneira geral, o trabalho unicamente como forma de edificação espiritual. O trabalhador, hoje, é um otário. Me pergunto o que poderia mover alguém que não está indo trabalhar (presumo), pegar um tijoão pesado e arremessar contra um ônibus. Quer dizer, pelo que apurei, o cara nem ficou para assinar sua “obra”. Terminado o ato, o infeliz corria tanto que batia o calcanhar na bunda.

Mencionei no artigo anterior sobre a greve de ônibus que o termo “Vandalismo” nasceu com povos antigos contemporâneos dos romanos, reza a lenda que o termo “vândalo” foi usado pela primeira vez na revolução francesa. O termo foi recebendo outras conotações e caindo no jargão de outros contextos até firmar-se com o significado de descaracterizar / destruir patrimônio coletivo como estátuas, pontes, praças… ônibus cheio de trabalhadores é um outro exemplo.

Também mencionei que, durante a greve de ônibus daqui de Fortaleza, muitos dos manifestantes agiam com violência e atitudes que visavam intimidar. Não preciso dizer que estes são os melhores momentos para um homem de meia idade, inseguro e sem auto-estima, mostrar o quanto é viril e poderoso. Para esse tipo de gente, recomendo buscar outras formas de aparecer e mostrar uma auto-imagem impressionista.

Experimente liderar uma banda de música japonesa. Funciona para muitos.

Continuemos nosso raciocínio: O trajeto do cambão passa por um dos pontos mais perigosos de Fortaleza. Não pretendo rotular nada neste ponto do texto, mas fica meio difícil não agir dessa forma. O ponto crítico da rota é uma favela chamada Aerolândia. Caso alguém pare para pensar, um indivíduo que atira uma pedra em um ônibus em movimento antes das 7 da manhã e ainda mora em uma favela, não tem como tirar uma conclusão muito favorável dentro deste cenário. Levemos em conta, ainda, a posição do ônibus que foi atingida: a primeira janela depois do motorista. impressionante como não poderia deixar de ser tão óbvio.

O trombadinha mirou no pé do ouvido do motorista.

Comentei sobre vandalismo e tal, porém, meu pensamento aponta para uma tentativa de assalto. Ainda bem que o marginal estava com fome na hora e não arremessou a pedra com mais força, pois estaríamos com sérios problemas agora. Tenham certeza de que há trabalhadores na região mencionada anteriormente, há estudantes e pessoas de bem, mas o problema é que os verdadeiramente motivados estão motivados para “outros” meios de ganhar a vida. Entendam que, aqui, estou trabalhando com uma amostragem de um caso vivenciado, não se trata de uma generalização, os casos ocorrem sim e com os próprios trabalhadores daquela região, então o cálculo com base na amostragem aqui exposta é válido. Alguém que acorda cedo desse jeito para atirar uma pedra daquele tamanhocontra um ônibus cheio de gente que ele nem imagina quem seja e não teve sucesso, muito provavelmente aprenderá com os erros e tentará novamente, se já não tentou.

A oportunidade faz o ladrão.

São tantos os pontos para se destacar diante de uma situação destas que fica até complicado não enumerar todos de uma forma satisfatória. Além de tudo isso já mencionado, queria expor mais um ponto que, ao menos eu julgo, deve ser levado em consideração. Como se não bastasse uma “provável” tentativa de assalto tão cedo da manhã que você ainda sente o gosto do café na boca, ainda há alguém retardado e imaturo o suficiente para cair na risada e tentar chamar a atenção para seu grandioso senso de humor para dispersar as más vibrações. Quer dizer, alguém que, após ver uma pedra de 20 cm atravessar o ônibus onde está e quase causar um acidente fatal para todos os efeitos (acertando o motorista ou não), acredita que este é o melhor momento para fazer piadinhas de caráter duvidoso, com veia humorística cretina e imaturidade suficiente para acreditar que “depois que passa, todo mundo deve rir, foi engraçado a cara que fizeram”…

… depois o grosseiro sou eu.

Hoje fiquei de fazer um artigo sobre outro ponto de vista sobre greves registrados na história, mas esse evento ocorrido tão cedo da manhã acabou desviando totalmente meu focoPróximo artigo, voltaremos com nossa programação normal, apenas estou esperando passar o impacto. Fica aí o aviso dos ocorridos em minha manhã. Os motoristas deveriam trabalhar com adicional de periculosidade ou usar EPIs (se já não recebem, devo pesquisar), daqui a pouco, todo o resto também.

Melhor seria colocar o maldito imaturo dono da risadinha pra servir de escudo.
ενθουσιασμός.

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