Acontece… Parte 01

Meu povo, Fortaleza esteve uma putaria só.

O ruim é que não é aquela putaria que você ta pensando, menino da mentalidade poluída… me refiro ao dia de parada geral dos motoristas de ônibus, resultando em um sentimento geral de frustração e “se arrependimento matasse” por parte de passageiros, grevistas e…

…Frustração é um sentimento que, geralmente, ocorre quando não é alcançada referida meta.

Acontece que  o M.P.T. (Ministério Público do Trabalho), na pessoa do Sr. Francisco Gerson Marques de Lima – Procurador – chefe do referido órgão, estava adiantando uma reunião para homologar um dissídio coletivo, tentando adequar a remuneração salarial da categoria dos motoristas e…

….Dissídio Coletivo é uma ação movida no M.P.T. para se fazer cumprir uma decisão por parte de um juiz, quando sindicato e empresa não entram em um acordo. Quando há um acordo entre sindicato e empresa, ocorre uma Convenção Coletiva.

Acontece que o tal do dissídio foi marcado para sexta (dia 13/08), o que fez manter a greve de ônibus até o final do dia 12/08. A categoria, ao que parece, não manteve a greve na sexta, aguardando o desfecho do dissídio que trará uma adequação dos salários (10%) com data retroativa para 1º de maio.

Dia do trabalho, nada mais justo.

Isso é muito bom, porém, não estou contando com toda a depredação que ocorreu durante o dia 12/08, tudo se realizando diante de vários cidadãos que tentavam, passivamente, ir trabalhar e engolir o sapo nosso de cada dia…

…Depredar é o ato de descaracterizar ou destruir patrimônios alheios (ou públicos de forma geral). O nome deriva dos vândalos, um povo primitivo germânico situado em Cartago, contemporâneo dos Romanos.

Acontece que ninguém precisava presenciar tudo aquilo, ao que percebi mediante relatos da mídia e testemunhos confessos, muitos dos que aderiram a este movimento hostil não deveriam estar lá pois não compõem a parte interessada (motoristas de ônibus), mas entraram lá pelo simples fato de escandalizar. Acredito que, nem os motoristas, nem os sindicalizados, tinham um controle pleno de todos os envolvidos, muito menos teriam um controle de todos os eventos que poderiam ocorrer.

Na ultima greve que rolou por aqui, um motorista levou uns pontos na cabeça por menos. Sabe de uma coisa: Não é todo mundo que curte uma greve.

É sério! Pode ser que seja legal passar o dia todo debaixo do sol gritando, gesticulando e falando palavrão ao lado dos companheiros, correndo atrás dos caras que não aderiram ao movimento e cagando o pau com a população. Lembro de uma greve que ocorreu em uma Universidade Federal daqui do Ceará onde os professores que não paralisaram suas atividades eram arrancados da sala na base do xingamento e força bruta. Os alunos que queriam estudar também recebiam o mesmo tratamento.

Sai da sala, seu vagabundo!

Acontece, acontece. Greves marcaram momentos de uma geração e não falo de “caras pintadas”, falando nisso, onde eles andam? Tão atrasados, acredito. É sabido que o trabalhador comeu o pão que o diabo amassou, sofreu pra carái e alavanca a mudança de seu país, seja o Brasil ou qualquer outro. A libertação dos Estados Unidos ocorreu com um punhado de fazendeiros nada escolarizados. Duvido que metade dos sindicalistas saibam disso, estão ocupados gritando na rua, existe uma grande parcela da população que curte uma paralisação geral da frota coletiva para ficar e virar refém da TV, são coisas que acontecem, greves não são um monopólio de nossa época, desde muitissíssimos anos atrás ocorrem greves, desde o antigo Egito e muitos nem sequer sabem disso.

Hoje essa verdade vai mudar.

A GREVE NO EGITO ANTIGO DE RAMSÉS III
Diante dessa esculhambação toda que ocorreu (pretendia emitir esse artigo antes, mas não rolou) resolvi expor a greve mais antiga já registrada na história da humanidade, ocorreram outras em Roma, mas ficaremos no Egito para variar. Antes de apontar esse tremendo babado da corte de Ramsés III, queria explicar algumas coisinhas sobre o Egito e o faraó.

Eu não sei quantos dos meus (quarenta e oito) leitores sabem disso, mas existem mais Ramsés do que você espera, cada faraó ganha títulos sucessório iguais aos do pontífice/Papa atual, chamados de “Titulatura”. Reconhecemos faraós com nomes iguais por conta dessa titulatura contida dentro dos cartuchos (hieróglifos dentro de um retângulo com bordas arredondadas) e não pelos desenhos nas paredes, assim, evitamos que você acabe confundindo este homem chamado Paul deste outro Paul aqui. Neste caso, conhecemos o Ramsés II (dos filmes do corujão onde ele enfrenta Moisés) e este aqui, não muito conhecido, porém, este tem uma história extraordinária, é um dos meus faraós favoritos.

Ramsés III pegou um verdadeiro abacaxi plantado por seu antecessor (filho direto de Ramsés II), o reino estava uma putaria só: O delta do Nilo estava tomado por inimigos, a cidade estava cheia de conflitos religiosos e o povo tinha fome, sem falar na credibilidade do grande rei abalada. Muito provavelmente o faraó sabia que a coisa não podia (ou não devia) piorar mais do que já estava, então, num ato extremo de legítima coragem ou de abandono total da lucidez, o monarca resolve apostar suas últimas fichas em uma guerra total contra os invasores.

Ramsés III chamou todo mundo, gastou as economias reais para fortificar os soldados, oferecer oferendas aos deuses e caprichar no armamento. Lembrem-se que o Ramsés anterior havia reformado todo o campo militar egípcio, antes disso, os egípcios iam ao campo de batalha com as mesmas armas de caça e pesca… isso pode funcionar para os índios/nativos, mas isso aqui é uma guerra de proporções continentais.

O que xavancas um homem quase nú segurando uma lança faria contra um soldado protegido da cabeça aos pés, montado em um cavalo e levando uma espada na mão e um arco e flecha nas costas?

Enfim, ocorreu naquele continente pancadaria para medir no metro, resultando na vitória de Ramsés III. Grato aos deuses, o filho do sol cumpriu sua promessa erguendo um templo gigantesco no meio do deserto, o templo de Medinet Habu. A entrada do templo é gigantesca e, nas laterais, estão esculpidas todas as oferendas pagas pelo monarca ao panteão divino, eu vi em um documentário que o templo mais parece um “livro de contabilidade”, lá você pode conferir, número por número, como foi embora o resto do tesouro real. Percebam que o faraó não pretendia deixar prisioneiros, fez questão de deixar registrado o ódio que tinha dos invasores e seu comprometimento em limpar as terras sagradas do Egito da praga invasora: Podemos contar quantos inimigos foram mortos, as mulheres tiveram as mãos cortadas e amontoadas em uma pilha, os homens tiveram seu… seu… ah você sabe, o “amigo” também era cortado e jogado em uma pilha. Não espere que eu vá descrever a parte do corpo do homem que foi cortada, é brutal para todo homem do sexo masculino que goste do seu “amigo” no lugar.

Ninguém fode com Ramsés III.

A paz estava instalada em seus domínios, o faraó agora gozava de plena tranquilidade. Seguindo a tendência do Egito, todo faraó, teria sua grandeza reconhecida pelos deuses após vencer uma terrível batalha e morrer em um tremendo palácio mortuário. Os antigos egípcios sempre tiveram essa cisma com a morte, a preocupação com o que deixariam para trás já tomava a cabeça dos povos antes mesmo de morrerem, inspecionando frequentemente a construção de sua sepultura, inúmeros trabalhadores penavam todos os dias. Seus pagamentos eram na base do vestuário e comida, basicamente.

Este post já está bem grande, caso não aguente, pede pra sair.

Um belo dia, a distribuição da ração e dos tecidos não ocorreu. Beleza, nada de mais. Outros dias passaram e o pagamento não foi feito, a realeza dava seus primeiros indícios de que as coisas não iam muito bem. Pelo que sei, os trabalhos na câmara mortuária de sua majestade ficaram dessa forma por cerca de 2 meses e os egípcios trabalham em uma escala desumana (dez dias de trabalho por um de descanço), após isso, inúmeros funcionários resolveram se organizar e peitar o próprio monarca para reivindicar os pagamentos.

Agora pare um pouco e pense nisso: Ramsés III, naquela altura do campeonato, era um homem de meia-idade, cansado e cheio de problemas em seu complexo administrativo, sem falar nas intrigas que rolaram em seu harém (intrigas, estas, que o matariam anos mais tarde), teria que pedir desculpas aos trabalhadores por trabalhos “escravos” e a falta de pagamento. Os operários, trabalhadores, pintores, artesãos e a piãozada de modo geral não queria conversa. Dizem as escrituras (ver Papiro de Harris) que os trabalhadores acamparam nas imediações do palácio real e não sairam de lá até que Ramsés III, não apenas pagasse os grãos e tecidos atrasados e desse um adiantamento de cinco meses de trabalho, mas ainda pedisse desculpas diante de todos.

Ramsés III experimenta ansiedade, não se sentiria mais um deus como era antes, aqueles operários não tinham medo de um deus, quem era o deus, afinal?

CONCLUSÃO
Após todas as condições aceitas e cumpridas, as obras no templo voltaram, Ramsés III dependia do trabalho daqueles homens, o Egito antigo era uma sociedade organizada baseada no respeito ao trabalho duro. Existiam sim, claro, cargos políticos e de interesse intelectual, mas a marca registrada, com efeito, a base de suas cidades e muito do misticismo sobre a morte eram ligados com a arquitetura e o trabalho braçal. Resolvi comentar este exemplo para ilustrar, da maneira que ocorreu aqui em Fortaleza, o lado bom da negociação e do diálogo. Neste caso, também apontei para a violência gratuita e desnecessária promovida pelos próprios manifestantes, coisa que parece influenciar diretamente na resolução rápida do problema.

Por falta de tempo, falaremos do outro lado da moeda no próximo artigo. Quando as negociações não são feitas adequadamente e tudo vai pra baixo da égua, quando a força e o manifesto truculento entram em cena para causar.  Meu tempo está completamente escasso e sejamos honestos, isso também acontece.
ενθουσιασμός.

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1 comentário Adicione o seu

  1. ANA PAULA VIEIRA disse:

    Adorei seu dasabafo de acordo com a situação lamentável!!!

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