Palestra Abrindo a Bíblia, Uma Contribuição à História do Cristianismo Primitivo

 Uma palestra em pleno domingo… castigo pra pobre é pouco. 

Não é qualquer pessoa que consegue te arrancar da cama em pleno domingo para passar 8 horas dentro de um auditório e ver uma palestra quando você poderia estar em casa, na cama dormindo ou fazendo outras coisas. Mesmo sobre um tema tão pertinente como uma visão menos renascentista dos ditos impressos na bíblia, tudo retirado da sua origem mais profunda: as escrituras em hebraico traduzidas por um pesquisador de mão cheia. Surpreendeu-me a quantidade de pessoas na palestra, pois um assunto como este é de interesse de todos, pelo menos deveria. Ainda bem que a cultura está prosperando em Fortaleza, de fato ganhamos um recanto para discutir filosofia , isso mostra que nossa prefeita se preocupa com o nível intelectual dos cidadãos.

Talvez não, visto que há uma caralhada de panfletos, posters e semelhantes pregados nas paredes de toda a cidade de Fortaleza anunciando o show do Dicesar, então eu não sei mais o que pensar.

O que vale é poder sobrepujar a preguiça, então, sob a autoridade de minha namorada que me ameaçou de violência física durante todo o final de semana se eu faltasse, resolvi ir até lá. E pode crer que valeu cada centavo e gota de suor, pois tirei muitas dúvidas e reforcei minha fé nas sagradas escrituras, afinal, está escrito que não se devem alterar as escrituras. Assim sendo, palestra, ai vamos nós! Momento cultura no blog: Sabia que Palaestra é um termo que deriva do grego παλαίστρα, usado para denotar as escolas de luta corporal?!

O evento ocorreu no Colégio Militar de Fortaleza, os ouvintes tiveram acesso a uma pequena parcela do complexo. Havia uma parte separada da palestra para a venda de livros de diversos assuntos, mas o mesmo tema: religião. Claro que podia ser percebida tamanha quantidade de livros espíritas, visto que o palestrante também é espírita. Não que isso seja um problema. Tinha livro que eu acredito que poderia ser lido por qualquer pessoa de qualquer religião sem sofrer nenhum tipo de influência. Ainda fico bastante intrigado em saber que perdura esse preconceito cretino sobre religiões, principalmente por parte daqueles que estão no topo e, estes, é que deveriam dar o exemplo: Os católicos. Religião, futebol e mulher não se discute, eles dizem. Neste momento de trevas, é que necessitamos de um homem que se prontifique a traduzir a escritura sagrada em sua mais remota fonte. 

Acredito que nem mesmo o próprio mestre Pai Mei  seria tão vigoroso. 

Voltando ao assunto, depois de algumas musicas cantadas no violão (músicas que ninguém entendeu se eram espíritas ou evangélicas), entra em cena o palestrante. Uma figura carismática que só ele. Severino Celestino, homem pequeno, como ele gosta de chamar (até brinca que chamaram ele assim em uma palestra). Bastante tranqüilo e seguro de seu conhecimento da língua em questão: o hebráico. Adoro traduzir coisas, adoro idiomas (exceto o inglês, sobre o inglês, penso igual ao Jackie Chan). Sempre encontrei problemas em transcrever de um idioma para outro e acredito que você também passe por esse frustrante inconveniente. O Sr. Severino apontou a problemática de tradução entre idiomas com estruturas completamente diferentes. Veja que a bíblia sagrada foi escrita inicialmente em hebraico.

Toráh ou Tanach, eles chamavam.

Logo na seqüência (levou algum tempo, mas não foi muito não), o manuscrito sofreu uma tradução, seria traduzida para o grego e disseminada para todo o mundo, visto que era a língua dos cultos. 

Septuaginta, eles chamavam. 

Há mais diferenças entre esses dois idiomas do que comparar o este Coração Valente com este aqui. Se já estava ruim, prepare-se agora: A bíblia foi traduzida novamente, agora, para o latim. 

Vulgata, eles chamavam. 

Agora que você já tem mais ou menos uma noção do que andou ocorrendo por aqui, analise por este ponto: O hebraico é um idioma muito, mas muito antigo, a complexidade dele só perde para os hieróglifos egípcios, o que não descarta a característica padrão entre os dois que é a falta de vogais. O grego é outra macacada também, o texto flui de maneira fora do normal e assim ocorreu com os outros idiomas na seqüência. O professor ilustrou isso muito bem. Houve slides com fotos dos lugares mais pertinentes da história bíblica e ilustrações com o idioma original e seu significado equivalente. Também houve uma pausa e, na seqüência, perguntas sobre o assunto. Momento cultura no blog: A diferença entre palestra e seminário é que o seminário, além de ser usado para referenciar o imóvel onde ocorrem estudos da igreja (uma faculdade para padres ou coisa do gênero), é ainda um evento onde pessoas de conhecimento equivalente discutem sobre o assunto e há uma troca mutua de informação. A palestra, somente o palestrante fala, ao final, é permitido um momento para os ouvintes tirarem dúvidas, seja por perguntas anotadas ou comentadas em papel.

Por acaso eu lembro um árabe?

Tudo transcorreu numa boa e ainda deu tempo de comprar um livro dele. Para saber mais, compre o livro. Eu comprei e estou tentando ler (Analisando as traduçoes bíblicas – Severino Celestino da Silva). Falando nisso, o meu livro está autografado pelo prof. Severino, virei tiete, admito. Diante de sua simplicidade e carisma, eu que não sou dado aos ataques, entrei numa fila para tirar foto e conversa com ele. Não querendo me demorar muito acerca do conteúdo da palestra, afirmo que houve discussões e dogmas diversos e de bastante relevância que posso expor sem peso na consciência.

Havia só Adão e Eva?
Definitivamente não. Entendam que a transliteração é um negócio meio complicado até certo ponto, lembrando toda a briga entre traduzir um idioma para outro que retratei ali acima, o termo Adam em hebraico significa homem. Na transliteração, perdeu-se o sentido de “homem da terra”, dando a idéia de que os homens foram criados da terra, uma nação. Daí a contradição que o leitor cai quando percebe que Adão, fugindo do Éden, encontra outros homens. Ainda, no original, não há Eva, mas sim, Hava. Isto ai significa “Vida”. Então podemos entender que “De Adam, tirou-se Hava”, a vida veio da terra, não há uma patroa vinda da costela dum cara chamado Adão. 

Que nó no cérebro. Próxima pergunta! 

Quais os nomes dos primeiros livros da bíblia original?!
Ah, essa é fácil! O “Gênese” é chamado de “No princípio”,  “êxodo” é chamado de “Nomes”, ainda há “Levíticos” e “Números”, “Ele chama” e “No deserto” respectivamente. Por fim, “Deuteronômios” que se chama “Palavra”. Foi ainda demonstrado em slides a transcrição no hebraico mas esse não dá pra mostrar aqui, foi mal galera. 

E os evangelhos apócrifos?
A bíblia original era muito grande, muita coisa ocorreu nestes milênios pra cá, nem mesmo o Oshinin Dell-Star é tão velho. O manuscrito, invariavelmente, sofreu uma ceifada para caber aquilo que cada ordem religiosa julgou conveniente para sustentar sua causa. Não há um motivo específico para esconder os apócrifos, o Evangelho segundo Felipe é uma base de conduta super edificante. Na verdade, eu defendo a idéia de que todas as escolas de ensino fundamental deveriam ensinar o evangelho de Felipe. Eis que alguém levanta perplexo e grita mostrando eloquência: – Veja bem Bazuca, qual o motivo que nossa sociedade deveria experimentar um novo viés de conduta, com base numa religião cujo o Deus que nem nome tem cria dogmas? 

Essa é fácil! Para evitarmos problemas como este

Enfim, o livro dá muitas outras explicações sobre as crendices cabeludas que são passadas como verdades inquestionáveis para nossa sociedade. Não tenha dúvidas que essas verdades são alteradas de geração em geração. Ai entra aquele ponto chave em que várias religiões brigam para saber qual é a certa. Não pretendo entrar naquela velha intriga entre étnica ou religiosa, as religiões já mataram mais do que as guerras, para tanto, recomendo um filminho sobre o religiões em conflito: Ágora. É um filme Cult e não há cenas de luta sangrentas, rapazes de cabelo espetado e franjão ou magias escalofobéticas, de vez em quando um judeu ou romano leva uma pedrada mas os embates não vão muito além disto. Alexandria e os templos egipcios são soberbos, pinturas maravilhosas e os romanos são carregados de charme e estereótipo, são um verdadeiro passeio na mente de Alessandro Algardi.

Deixe o Homem de Ferro fictício de lado um pouco, quer um bom motivo? Esta é Rachel Weisz , ela interpreta a filósofa Hipartia e ela aparece nua.

Algo que o prof. Severino foi muito enfático é a problemática que há entre algumas crenças que se valem da bíblia para afirmar que lá se condena o espiritismo. De primeira pode-se crer que esta afirmativa tem tanta cultura que eu poderia compor um pagode usando-a como refrão. No tempo de Jesus não existia espiritismo, essas massas acham que isso é condenável e colocam a bíblia como escudo impenetrável numa questão que não compete.

Existe um catatau de bíblias vendidas de forma incansável por ai e todas carregam trechos diferentes uns dos outros entre si. Alguns diferem por mera conveniência ou disposição dos sinônimos, outros, nem tanto. A verdade está contida em sua raiz mais profunda, o Sr. Severino está fazendo um grande trabalho e merece não apenas o respeito, mas o apoio geral de todos. É algo que precisamos saber para colocarmos nossa vida religiosa definitivamente nos trilhos e esperar que não tenha ocorrido um desvio burlesco na rota. Em um dead line

Eu não gostaria de acabar assim, por não me ajeitar dignamente. 

Para terminar este post, peço que reflitam sobre a condição humana exposta pelo espiritismo. O prof. Severino Celestino insiste que o humano é o ápice de um crescimento espiritual que não retrocede nunca, por mais que você tenha sido um imcompetente por toda a vida, na pior das hipoteses, voltará como um humano, mas voltar como um cão ou um ornitorinco está fora de cogitação. A questão é que um vídeo no youtube me fez pensar… estamos mesmo na crista da onda em uma escala evolucionária?! E olha que eu sou um lutador de kung-fu, pra eu ficar comovido tem que ser algo realmente fora do normal. 

É um video realmente triste e muitos podem achar apelativo pela tamanha carga emocional, porém, ninguém cresce sem crítica. Cansei dessa porra, falei! Prof. Severino, meus parabéns, traduz daí que eu leio daqui. Até o próximo post

ενθουσιασμός.

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5 comentários Adicione o seu

  1. Candy disse:

    Adorei o artigo!

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  2. Candy disse:

    Estou esperando um outro mais aprofundado!

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    1. Carlos Bazuca disse:

      Hehehe, então somos dois.

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  3. Ricardo disse:

    Muito bom o post. Acompanho o trabalho do Prof, Severino a algum tempo e acho que seu trabalho deveria ser leitura obrigatória em qualquer curso sobre o cristianismo.

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    1. Carlos Bazuca disse:

      PREZADO RICARDO,

      Agradeço o comentário. Concordo com o argumento exposto. Pretendo acompanhar o trabalho do Prof. Severino sempre que puder, aproveito para informar que ele foi convidado para ministrar palestra no 18º ENESE aqui em Fortaleza (dias 11 e 12 de setembro).
      Minha presença é mais garantida do que meu salário no final do mês.

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